quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Responsabilidade Social e Sustentabilidade – Entre o dizer e o fazer tudo pode acontecer!

Em 2002, quando, a convite de António Capucho, voltei a integrar o Conselho de Administração da Tratolixo, uma das minhas primeiras tarefas foi assumir a gerência da empresa Tratospital – Tratamento de Resíduos Hospitalares Lda.

Esta empresa, criada em 1997 pela Tratolixo, em parceria com a IPODEC, atravessava na altura algumas dificuldades, tinha um passivo de cerca de 400.000 €, mas era um projecto que merecia um esforço de reorganização e recuperação económica.

Com uma política comercial mais agressiva, com a reestruturação da estrutura de produção, com a beneficiação e ampliação das instalações de tratamento, conseguiu-se recuperar a empresa e passá-la para um patamar de rentabilidade e recuperação do passivo.

Em 2007, a AMTRES, enquanto accionista da Tratolixo, deliberou alienar a participação de 51% que detinha na Tratospital.

Em finais de 2008 foi negociado com a IPODEC a venda dessa participação por cerca de 400.000 €.

A IPODEC, agora grupo EGEO, dividiu este investimento com a SAPEC Quimica SA. passando a Tratospital a ser gerida em conjunto por estas duas empresas.

A Tratospital nos últimos anos foi uma pequena empresa, com 32 funcionários, que gerou resultados positivos depois de impostos. Em 2009 ultrapassou os 200.000 €.

A Tratospital tem uma quota de mercado de cerca de 15% dos resíduos hospitalares nacionais e assegura ainda o tratamento de mais 15% de RH provenientes de um dos seus concorrentes, o SUCH.

O mercado nacional tem 3 grandes empresas de Tratamento de Resíduos Hospitalares: A Ambimed, o SUCH (empresa de capitais públicos) e a Tratospital.

A bomba caiu há alguns dias.

O Grupo EGEO e a SAPEC decidiram vender a Tratospital por (diz-se…) 1,7 milhões de euros ao Grupo Ambimed.

Consultada a Alta Autoridade da Concorrencia não viu inconveniente que o grupo Ambimed passasse a deter, com esta aquisição, cerca de 85% da capacidade de tratamento de resíduos hospitalares instalada em Portugal ou que ficasse com uma quota de mercado muito superior a 50%.

O bizarro é que todos temos consciência que a esmagadora maioria das facturas do tratamento de resíduos hospitalares é paga pelo SNS, ou seja, dinheiro público.

O Grupo Ambimed já decidiu despoletar o despedimento colectivo dos 32 funcionários da Tratospital.

Uma empresa rentável, manda para o desemprego os seus 32 funcionários!

Qual é a moral desta história?

Aparentemente nada de ilegal aconteceu. Pode-se discutir a decisão da AAC, mas apenas isso.

Mas afinal o que é a responsabilidade social e a sustentabilidade tão em voga nos tempos de hoje?

Como é possível que uma situação como a que acabei de descrever, possa estar a acontecer?

No Grupo EGEO e na SAPEC certamente as garrafas de champanhe já foram abertas para comemorar mais de 1 milhão de euros de mais-valias neste negócio. Deverá ter sobrado alguma tacinha para alguns dos actuais Administradores da Tratolixo.

O Grupo Ambimed vê, finalmente ao fim de tantos anos, a confirmação da sua posição hegemónica no mercado do tratamento de resíduos hospitalares em Portugal e vai passar a ditar o preço a praticar.

Os funcionários da Tratospital que tornaram possível trazer esta empresa de resultados negativos de 400.000 € para os lucros anuais de 200.000 € recebem uma carta. Uma carta de despedimento colectivo.

A Susete, que foi mãe há pouco tempo, assim como a Helena, a Sónia que acabou de casar, o Carlos e o José, na casa dos cinquenta e que há mais de dez anos eram motoristas de recolha de Resíduos Hospitalares, receberam uma carta de despedimento.

Esta é a Responsabilidade Social que alguns dos nossos gestores pôem na sua acção do dia-a-dia.

Alguns deles estarão no próximo domingo a bater com a mão no peito em uma qualquer igreja para a seguir juntar a sua família para um opíparo almoço, pago com o dinheiro gerado por mais um negócio estrondoso.

No mesmo domingo, os 32 funcionários da Tratospital estarão a tentar perceber de onde veio a mão que lhes pregou tal bofetada…

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

RESÍDUOS: FISCALIZAR E… MAIS QUALQUER COISA!

Ontem estive no GreenFest a assistir às Conferências EMAC.

Gostei da comunicação apresentada por Rui Libório, sobre o tema Gestão da Urbe.

O Moderador, durante a apresentação dos oradores, resolveu banir-me da história da EMAC ao apresentar Rui Libório como o Presidente do Conselho de Administração da EMAC desde a sua criação.

Não faz mal.

Algum funcionário mais zeloso ou uma simplificação de semântica não consegue abalar o orgulho que continuo a ter pela minha passagem por aquela empresa na sua fase de concepção, montagem da estrutura e arranque de operação em finais de 2005, em situação tão dificil.

Mas regressando à comunicação de Rui Libório ela encerrava um paradigma dos tempos modernos e muito acertivo no que a Cascais respeita.

Habituámo-nos a viver numa sociedade onde os cidadãos só têm direitos e não têm deveres nenhuns.

Em Cascais, onde a fasquia da qualidade atingida ao nível dos serviços ligados à limpeza urbana e à recolha de resíduos é já muito elevada, a CMC arrisca-se a ver esgotados os recursos financeiros para conseguir manter o mesmo nível de qualidade.

E o munícipe cada vez mais tem uma atitude de que para ele não sobra qualquer tipo de responsabilidade ou colaboração. Mais, com o maior dos desprezos danifica, grafita, encendeia, sem, em qualquer momento, perceber que o que estragou, mais o que vai ser reposto, é pago com o dinheiro dos seus impostos!

Defende Rui Libório na sua comunicação que temos que passar a investir em fiscalização e coacção.

É verdade, mas sózinho é redutor.

Falta algo mais.

Há muito tempo que defendo que os resíduos urbanos não podem continuar a ser tarifados por métodos indirectos.

As pessoas, de uma vez por todas, têm que ter consciência directa que, em função do seu comportamento, podem pagar menos ou podem pagar mais, assim tenham uma atitude mais colaborante ou mais despreocupada com as entidades gestoras dos resíduos e da limpeza urbana.

O segredo estará em pagar em função da quantidade e do tipo de resíduos produzidos.

Separa, é mais barato, não separa é mais caro.

Complementarmente a estas medidas há duas outras componentes imprescindíveis e indissociáveis: A sensibilização e a fiscalização!

Andou muito mal o Dr. Carlos Carreiras quando defendeu de forma intransigente em 2007 que a sensibilização e as recolhas deveriam ser executadas por cada uma das Câmaras e retirar essa competência à Tratolixo.

Hoje o resultado, o mau resultado, começa a estar à vista.

É um erro pensar-se que é possível optimizar a área dos resíduos, que é possível implementar uma estratégia com cabeça, tronco e membros para a área dos resíduos, sem concentrar na mesma entidade a responsabilidade de gestão global do processo ou seja, a recolha, o tratamento e o destino final!

Também a sensibilização enquanto propiciadora de mudança de atitudes deve estar agregada à entidade gestora do sistema.

Repare-se que fazer campanhas para 800.000 pessoas justificam a utlização de meios mais pesados mas mais penetrantes do que fazer campanhas concelho a concelho.

A sensibilização tem que ter dimensão e tem que ser consequente com as estratégias definidas.

Um dos erros crassos que todas as Câmaras do “Sistema Tratolixo” têm vindo a fazer é investir apenas em sensibilização para crianças.

Não são as crianças que levam os lixos aos contentores!

A sensibilização deve pontuar a mudança de atitudes da população em geral e garantir o seu envolvimento no sucesso da estratégia a implementar.

Hoje duvido que exista uma real estratégia que produza a ligação de objectivos entre a recolha, o tratamento e o destino final nas câmaras de Cascais, de Oeiras, de Sintra e de Mafra.

Anda cada um para seu lado!

Esta falta de estratégia vai sair muito cara às Câmaras de Cascais, Oeiras, Mafra e Sintra, com os custos globais das recolhas, do tratamento e do destino final a subirem porque não estão coordenados e não são geridos pela mesma entidade.

Não é dificil perceber que em determinadas situações valerá a pena pagar um pouco mais pela recolha se viermos a ter ganhos no tratamento e no destino final e o processo no seu todo custar menos.

Com cada entidade para seu lado a desenvolver estratégias autónomas estimo que tal descoordenação já possa a estar a onerar a factura global dos Resíduos em mais de 10 € por tonelada.

É muito dinheiro… para quem se queixa que tem cada vez menos!

E tudo isto esteve tão bem pensado até 2007!