terça-feira, 22 de março de 2011

Tratolixo - O fim de uma estratégia ou simplesmente sem estratégia?...

Fez ontem 4 anos que participei no último acto público, na qualidade de Presidente do Conselho de Administração da Tratolixo EIM.
Tratou-se da apresentação de uma comunicação sobre o tema “Reforço de Reciclagem” no âmbito de uma Conferência que decorreu no Hotel Tivoli Tejo.
Neste dia defendi, com base nos números de gestão da Tratolixo e da experiência da implementação do Plano Estratégico de Resíduos de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra que a solução era claramente apostar na reciclagem e na reutilização dos resíduos sólidos urbanos e que esta solução era económica e ambientalmente sustentável.
Contra os "amigos da incineração e da facilitação" assumi com clareza uma opção estratégica de promoção das recolhas selectivas.

Infelizmente, nesse mesmo dia estava a tomar posse o novo Conselho de Administração da Tratolixo, a ser presidido por Domingos Saraiva e composto ainda por mim próprio, como Vice-Presidente, Vítor Castro, Luís Realista e Lino Ramos.
Viria a perceber nos dias que se seguiram que as Câmaras deste sistema tinham optado pelo facilitismo, abandonando parte da estratégia que tinha sido traçada em 2003, deixando cair as recolhas porta-a-porta, a recolha selectiva de RUB (Resíduos Urbanos Biodegradáveis, vulgarmente conhecidos por Resíduos Orgânicos) e retirando á Tratolixo algumas das competências que lhe tinham sido atribuídas com a celebração do contrato de concessão, nomeadamente ao nível das recolhas selectivas e da sensibilização.
Domingos Saraiva tinha sido mandatado para iniciar o desmantelamento de toda a estratégia que a Tratolixo liderou durante 4 anos com resultados que estavam à vista de todos. E se não se fez melhor, muito se ficou a dever ao sistemático boicote realizado por algumas câmaras do sistema.
Terminei o meu mandato na Administração da Tratolixo em Dezembro de 2009.
Volvidos 4 anos, penso que é importante fazer-se um balanço e analisar o que mudou, os resultados práticos dessa mudança e, acima de tudo, confirmar se as mudanças realizadas dotaram a empresa de melhores perspectivas de funcionamento e de sucesso para o cumprimento do seu objecto.
Afirmo de forma peremptória que, na minha perspectiva, a Tratolixo piorou qualitativa e quantitativamente.
O abandono da aposta no crescimento da reciclagem trouxe um claro arrefecimento à vontade da população e o decréscimo das recollhas selectivas são um facto.
Também a falta de sensibilização à escala do sistema tem sido um forte impeditivo ao desenvolvimento comportamental das populações, e esse retrocesso é bem visível quando analisamos os números.
Mas este passo atrás nas recolhas selectivas teve um outro impacto importante no sistema e na sua estratégia, porque condenou ao fracasso o Project Finance tal qual foi concebido inicialmente.
As alterações introduzidas trouxeram mais despesa e menos receita, com a redução da previsão de recolhas selectivas e a consequente quebra dos valores das respectivas retomas.
Ora, baixando a receita e aumentando a despesa é fácil perceber o que acontece à tarifa: adeus 29 € de tarifa base do project inicial!
Hoje a grande aposta é empurrar a Tratolixo para os braços da “gorda” EGF.
É um erro de gestão gravíssimo.
A Tratolixo tem uma mais-valia técnica, construída ao longo de uma vintena de anos.
Tem o know-how para desenhar as soluções de tratamento e, não tivesse sido empurrada para esta aventura de mau gosto, teria também condições financeiras de ser dona dos seus destinos.
Mas ainda que se possa entender a necessidade dos municípios em procurar uma injecção de capital na empresa, porquê entregar a jóia de mão beijada à Administração Central quando podiam ser os municípios a manter uma posição dominante na decisão da empresa abrindo parte do capital a privados?
Ainda ninguém conseguiu explicar esta intenção de engordar a galinha da vizinha, integrando a Tratolixo no universo da EGF para um dia destes assistirmos à privatização da EGF…
Infelizmente a política local está cheia de pseudo gurus da gestão e a esmagadora maioria dos cidadãos vai provando o resultado sem perceber as responsabilidades e as causas.
Como de costume, tudo acontece, tudo esquece, e só fica aquilo que os especialistas de marketing político querem que fique à superfície do conhecimento.
É pena.
Os munícipes de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra podiam ter sido protagonistas de um modelo exemplar.
Afinal, vão exemplarmente ser submetidos a um acto de gestão discutível e contribuir com os seus impostos para mais do mesmo!

quarta-feira, 9 de março de 2011

Não há só uma “Geração à Rasca”! À “rasca” estamos todos!

Hoje toma posse para o seu segundo mandato como Presidente da República Portuguesa, o Prof. Aníbal Cavaco Silva.
Período este conturbado na vida política portuguesa, que apresenta sinais claros de que este ciclo político está a chegar ao fim.
Os sinais são de uma evidência extrema.
Junte-se “Os Homens da Luta” e a sua vitória no Festival da Canção, a entrevista de Pedro Santana Lopes no fim de semana em que assume o seu cansaço do PSD e admite a possibilidade de promover um novo Partido, a manifestação marcada da “Geração à Rasca”, só para citar alguns exemplos, são claros sinais de falência do sistema político instalado em Portugal.
Poderão perguntar o que têm a haver Festivais com manifestações e anúncios de criação de novos Partidos?
Em minha opinião são sinais de que chegou ao fim a paciência de uma boa parte da população portuguesa relativamente aos responsáveis pela governação do País.
Perdoem-me os leitores destas linhas mas não vou fazer coro com a tese actual da Geração à Rasca e defender a demissão de todos os políticos. Para mim a responsabilidade final não pode ser assacada só aos políticos até porque eles não conseguem auto eleger-se para cargo nenhum!
Os políticos são os responsáveis materiais pelo actual estado de coisas mas, convenhamos, vivemos num País com eleições democráticas e em cada ciclo eleitoral é o povo que decide quem elege!
Qual a responsabilidade dos cerca de 50% que sistematicamente se abstêm de participar nas eleições?
Qual a responsabilidade dos eleitores que votam sem conhecer uma linha de quais as propostas de governação que cada um dos Partidos apresentam?
Qual a responsabilidade exigida pelo eleitorado quando alguém como Sócrates promete uma coisa na campanha eleitoral e faz outra exactamente ao contrário quando é chefe de governo? E nas eleições seguintes volta a ganhar?...
Antes de fazermos acusações aos políticos, (e em muitos casos são, infelizmente, mais que justificadas!) que tal começarmos por fazer um exame de consciência?
O que é que fizemos até hoje para activamente ajudar a melhorar este país, ajudar a mudar o que aos olhos da esmagadora maioria dos portugueses precisa de ser mudado?
Aos políticos, entre os quais me incluo, enquanto militante activo de um Partido Político, o que é que já fizeram para corrigir a prática política, que passos deram para afastar todos aqueles que ocuparam o poder para projectos muito mais de carácter pessoal do que de defesa dos interesses da comunidade?
Vivemos hoje muito preocupados com o nosso umbigo e agora que a crise nos começa a tocar vamos depressa procurar alguém que possamos responsabilizar pela nossa má sorte, pelo nosso triste fado.
Portanto, a minha primeira conclusão é que para mudarmos o actual estado de coisas temos que começar por mudar a nossa própria atitude no que respeita á participação nas decisões da coisa pública.
Temos que ser muito mais exigentes connosco e com quem nos representa.
Não podemos criticar os tachos dos políticos até que nos toque um! Depois de tocados pela sorte, os tachos já não fazem assim tanto mal…
Não podemos exigir reduções nos salários dos outros mas deixar os nossos de fora.
Não podemos criticar o despesismo do Estado mas pretender que não haja despedimentos!
Não podemos querer saude grátis, educação grátis, justiça rápida, segurança social, transportes subsidiados, obras com fartura nas autarquias e esperar que o dinheiro dos já poucos que contribuem com os seus impostos suportem isto tudo!
A política tem que ser reinventada.
Estou de acordo com a crítica lançada por Pedro Santana Lopes a muitos dos actuais dirigentes do PSD quando afirma que «cada vez mais os militantes e dirigentes daquele partido fazem mais guerra a companheiros do que a adversários». Eu próprio já o senti na pele!
Em Cascais, e na Distrital de Lisboa, Carlos Carreiras personifica de uma maneira até assintosa esta nova forma de fazer política.

Veja-se a reacção de Carlos Carreiras às declarações de Pedro Santana Lopes aconselhando-o a ir depressa embora do Partido ou as reacções que teve no último plenário do PSD de Cascais a raiar o histerismo contra alguns militantes que o ousaram criticar.
Esta confusão entre o interesse do Partido, do País e da comunidade nacional ou local, e o interesse próprio do actor político é o veneno que mata a democracia.
E, mesmo para os que acham que a história não se repete, todos têm ideia do que costuma aparecer quando o sistema político e a democracia fica deserta de respostas…