quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

MOBILIDADE E MARKETING



Com pompa e circunstância a Câmara de Cascais quis, finalmente, tentar um olhar para a mobilidade em Cascais.
Pode-se discutir se as opções serão as melhores, se as motivações serão aceitáveis, mas este mérito é indubitavelmente creditado ao actual executivo da autarquia Cascalense, chefiada por Carlos Carreiras.
Mas, há aqui um conjunto de pormenores que, como tentarei demonstrar, arriscam tornar-se “por maiores”….
Cascais tem vindo a insistir no uso da bicicleta de há uns anos a esta parte mas convenhamos, a sua utilização tem muito mais de fruição da zona por turistas em tempo de Verão do que um hábito arreigado na comunidade autóctone.
Mas vale o esforço e, sendo claramente um meio de transporte saudável e não poluente, deve a CMC continuar a pugnar por fazer crescer a sua utilização em condições de segurança, com vias dedicadas à utilização de velocípedes.
Vê-se em muitos locais da Europa e se é verdade que muitas vezes copiamos o que de pior se faz lá fora, pois que neste aspecto prevaleça a cópia do melhor.
Já as questões relacionadas com o transporte rodoviário, ferroviário e a política de estacionamento muita tinta podemos gastar porque estes autarcas muito mal estão a servir a comunidade que os elegeu!
Se é verdade que há que encontrar soluções que compatibilizem a vida das pessoas e as suas necessidades de transporte nestes movimentos pendulares com Lisboa e que estejam também sintonizados com a capacidade das nossas carteiras, é fundamental que as soluções encontradas sejam lógicas, viáveis financeiramente, ambientalmente corretas e que promovam um efectivo aumento de qualidade de vida aos utentes.
Ora, todo este frenesim municipal denominado Mobi Cascais tem muito mais de marketing político do que solução efectiva para o problema.
Acompanhem o meu raciocínio.
O drama CP, agora tão empolado por Carlos Carreiras conheceu dois momentos. Numa primeira fase, no governo do PSD, assistimos a um desinvestimento na qualidade do serviço prestado, com a diminuição da frequência de comboios e o aumento do tempo de duração da viagem, com o consequente aumento do desinteresse dos utentes nesta solução de transporte. Carlos Carreiras, como “social democrata convicto” pouco tugiu ou mugiu.
Nesta segunda fase, já com o governo do PS, “caiu o Carmo e a Trindade” por o governo não ter avançado com a modernização da linha.
É triste verificarmos que a politiquice, na cabeça dos nossos políticos locais, está sempre à frente dos interesses dos munícipes que representam!
Mas o aumento da utilização do comboio pela população de Cascais está dependente de outros dois factores complementares para além da qualidade do serviço prestado pela CP. Um transporte de autocarros eficaz, barato e a garantir um bom serviço à população que a Scotturb insiste em não garantir ou, em alternativa, a possibilidade de as pessoas se poderem deslocar com carro até à estação de comboios mais próxima da sua residência e conseguir estacionar o seu veículo num local próximo e sem ter que ter que empenhar a roupa interior para pagar esse serviço!
Se na política de autocarros, agora que Cascais arroga o poder de autoridade de transportes local deposito alguma expectativa, sobre a política de estacionamento já deu para perceber que de Carlos Carreiras não há nada de bom a esperar.
É especialmente sobre o estacionamento que o marketing político denominado Mobi Cascais mais hipócrita e mentiroso se mostra.
Repare-se que Cascais, a exemplo de quase todos os outros municípios portugueses, tem uma prática de autêntico esbulho sobre esta matéria.
A esmagadora maioria dos espaços públicos transformados em estacionamento resultam de cedências às Câmaras de terrenos no âmbito de operações de urbanização em que os legítimos proprietários cedem esses terrenos para os “fins públicos que as câmaras entenderem” e as Câmaras de forma insidiosa registam no domínio privado municipal. Passo seguinte é considerar que pode fazer o que entender no terreno nem que seja transformá-lo em estacionamento pago! As Câmaras transformam terreno cedido para fins públicos em terreno com utilização onerada para o público.
Em Português simples alguém encontra outro nome para isto que não seja esbulho?
Mas o que Carlos Carreiras tem para oferecer com este Mobi Cascais é um desconto nos parques de estacionamento junto às estações de comboios? Quais parques?
Há um em Cascais. Deve ser esse. Quem morar do Monte Estoril até Carcavelos ficou servido…
Mas esta ideia passa como boa. A esmagadora maioria dos munícipes não está nem estará interessada em utilizar a pseudo vantagem do “desconto” propagandeado no título de transporte combinado com o estacionamento porque lhe vai continuar a sair mais barato, embora menos cómodo, levar o carro para Lisboa.
Mas fica para memória futura que Cascais fez qualquer coisa acerca do assunto mobilidade. Uma conferencia de imprensa, uns comunicados, uns cartazes e que vai gastar uma autêntica fortuna numas bicicletas para alguém utilizar.
Há muito que Cascais demonstrou que não é preciso fazer. Basta dizer que se faz…

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

“C” de Coerência



As atitudes das pessoas são sempre o espelho da sua alma, do que valem como pessoas, a imagem da sua integridade, o quanto são verdadeiras e por essa via confiáveis.
Infelizmente, o povo português tem vindo a perder paulatinamente a capacidade de exigir dos seus políticos que sejam verdadeiros e cobrar deles, pelo menos nas eleições, com o seu voto.
Os tempos estão para se ter memória curta.
A recente notícia http://sol.sapo.pt/artigo/541443/sintra-psd-apoia-capucho-tr-s-anos-depois-de-o-ter-expulso- demonstra-nos como se pode ser tão pouco coerente na política sem receio nem vergonha por passar uma imagem invertebrada ao eleitor.
Boa parte da população parece ter esquecido o que se passou nas últimas eleições autárquicas mas eu faço questão de voltar a trazer este assunto ao debate.
A direcção do PSD na altura, onde pontificava Carlos Carreiras como Vice Presidente do PSD e herdeiro da presidência da Câmara de Cascais por abandono de António Capucho por motivos de saúde, e na Comissão Política Distrital do PSD Miguel Pinto Luz, também ele catapultado a Vice Presidente da Câmara de Cascais pela mesma via “hereditária”, acabaram por decidir que Marco Almeida não seria o candidato do PSD à Câmara de Sintra.
Marco Almeida tinha o apoio da totalidade das secções de Sintra do PSD mas Miguel Pinto Luz na Distrital boicotou a nomeação de Marco Almeida, inventando uma candidatura anedota liderada por Pedro Pinto que acabou com 13,79% dos votos (2 vereadores) e que, se depressa chegou a Sintra como candidato, mais depressa desapareceu para o bem bom do Parlamento, que isto de autarquias “ é muito trabalhoso e dá pouco cachet”…
Marco Almeida foi vetado porque não tinha apoiado Carlos Carreiras quando da sua eleição para a Distrital de Lisboa do PSD como também não apoiou Miguel Pinto Luz na sua eleição para a Distrital.
Carlos Carreiras já nos habituou a raciocínios lineares – se não estás comigo estás contra mim, e se estás contra mim estás feito até ao resto dos teus dias…
Marco Almeida, mesmo com uma lista anedota do PSD a concorrer contra si, acabou por ficar a 1738 votos de ganhar as eleições em Sintra, encabeçando uma lista independente. (PS – 32.894 votos; Sintra com Marco Almeida – 31.246 votos; PSD/CDS/MPT – 16.945 votos).
António Capucho foi o candidato na lista de Marco Almeida à Assembleia Municipal, facto que lhe valeu a expulsão do Partido de que foi fundador e onde militou durante quase 40 anos.
A piada disto é que os mesmos estatutos do PSD que serviram para expulsar Capucho do PSD por ter participado numa lista contra o Partido, de nada serviram para fazer valer a vontade dos militantes de Sintra quanto ao candidato que pretendiam apresentar em eleições…
Acto de coerência, não é?
O PSD acabou por ganhar apenas Cascais e Mafra em todo o Distrito de Lisboa o que é, convenhamos, muito pouco!
Mas as perspectivas não são nada animadoras para as próximas autárquicas no que ao PSD respeita.
Se Mafra parece estar de pedra e cal, não se augura que o PSD consiga inflectir a tendência de votos já registados nas últimas eleições autárquicas nos restantes municípios do Distrito e em Cascais, a possibilidade do aparecimento de um sucedâneo da geringonça, agora a nível local, poderia mesmo fazer o PSD perder esta Câmara emblemática para as hostes laranja.
Numa clara demonstração que em política vale tudo e a verticalidade e a coerência dos actos não tem valor reconhecido, os mesmos carrascos de Marco Almeida e António Capucho vêm agora fazer de conta que “sempre foram amigos”.
Carlos Carreiras teve um “ataque de azia” de uma semana mas prefere isso a ter que prestar contas no Partido por aumento de perdas.
Embora tenha que engolir Marco Almeida como candidato e tenha que aceitar que o seja nas condições impostas por Marco Almeida, arrumar António Capucho em Sintra é do mal o menos uma vez que, das hipotéticas figuras que poderiam liderar o dito sucedâneo de geringonça, a que detinha maior probabilidade de vencer Cascais era precisamente António Capucho.
Capucho, tem 8 anos de prática, de um estilo de governação de Cascais que enche o coração dos cascalenses de saudade! Qualquer comparação com Carreiras são, futebolisticamente falando, dez a zero a favor de Capucho!
Assim, sem coerência (valor com baixa cotação nos dias que correm ao que parece…) Carreiras e Pinto Luz “solucionam” Sintra a favor do PSD sem colocarem em causa a tribuna que têm em Cascais.
O que me deixa estupefacto é como chegámos a uma sociedade que acha normal a ausência de coerência, de verticalidade, de assunção de responsabilidades.
O PSD no anterior mandato candidatou um Presidente à Junta de Freguesia de Parede que se abotoou com uma quantidade assinalável de dinheiro.
Carreiras, enquanto responsável local do PSD, não sentiu necessidade nenhuma de pedir desculpa aos fregueses de Parede pela má escolha que o seu Partido fez.
Eu sei que não terá sido o PSD que mandou o dito senhor desviar o dinheiro para a jogatana mas que diabo, e a responsabilidade Partidária? Se nem para isto serve, então para que servem os Partidos? Qual a diferença entre votar num Partido ou no Zé dos Anzóis?
E qual foi a resposta do eleitorado nas últimas eleições? Vitória da lista do PSD.
Moral da história? Nem a quero verbalizar, pela vergonha que me dá enquanto cidadão.
Quanto ao eleitorado não se espera nada de novo.
Perante soluções em que sai mais valorizado o que acontece aos Partidos e aos seus militantes do que o que pode esperar Cascais, não auguro nada de muito diferente.
Metade ou mais vai voltar a ficar em casa e os outros, uns por “esquecimento” e outros por convicção vão voltar a deixar tudo com uma má solução!...