segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

“C” de Coerência



As atitudes das pessoas são sempre o espelho da sua alma, do que valem como pessoas, a imagem da sua integridade, o quanto são verdadeiras e por essa via confiáveis.
Infelizmente, o povo português tem vindo a perder paulatinamente a capacidade de exigir dos seus políticos que sejam verdadeiros e cobrar deles, pelo menos nas eleições, com o seu voto.
Os tempos estão para se ter memória curta.
A recente notícia http://sol.sapo.pt/artigo/541443/sintra-psd-apoia-capucho-tr-s-anos-depois-de-o-ter-expulso- demonstra-nos como se pode ser tão pouco coerente na política sem receio nem vergonha por passar uma imagem invertebrada ao eleitor.
Boa parte da população parece ter esquecido o que se passou nas últimas eleições autárquicas mas eu faço questão de voltar a trazer este assunto ao debate.
A direcção do PSD na altura, onde pontificava Carlos Carreiras como Vice Presidente do PSD e herdeiro da presidência da Câmara de Cascais por abandono de António Capucho por motivos de saúde, e na Comissão Política Distrital do PSD Miguel Pinto Luz, também ele catapultado a Vice Presidente da Câmara de Cascais pela mesma via “hereditária”, acabaram por decidir que Marco Almeida não seria o candidato do PSD à Câmara de Sintra.
Marco Almeida tinha o apoio da totalidade das secções de Sintra do PSD mas Miguel Pinto Luz na Distrital boicotou a nomeação de Marco Almeida, inventando uma candidatura anedota liderada por Pedro Pinto que acabou com 13,79% dos votos (2 vereadores) e que, se depressa chegou a Sintra como candidato, mais depressa desapareceu para o bem bom do Parlamento, que isto de autarquias “ é muito trabalhoso e dá pouco cachet”…
Marco Almeida foi vetado porque não tinha apoiado Carlos Carreiras quando da sua eleição para a Distrital de Lisboa do PSD como também não apoiou Miguel Pinto Luz na sua eleição para a Distrital.
Carlos Carreiras já nos habituou a raciocínios lineares – se não estás comigo estás contra mim, e se estás contra mim estás feito até ao resto dos teus dias…
Marco Almeida, mesmo com uma lista anedota do PSD a concorrer contra si, acabou por ficar a 1738 votos de ganhar as eleições em Sintra, encabeçando uma lista independente. (PS – 32.894 votos; Sintra com Marco Almeida – 31.246 votos; PSD/CDS/MPT – 16.945 votos).
António Capucho foi o candidato na lista de Marco Almeida à Assembleia Municipal, facto que lhe valeu a expulsão do Partido de que foi fundador e onde militou durante quase 40 anos.
A piada disto é que os mesmos estatutos do PSD que serviram para expulsar Capucho do PSD por ter participado numa lista contra o Partido, de nada serviram para fazer valer a vontade dos militantes de Sintra quanto ao candidato que pretendiam apresentar em eleições…
Acto de coerência, não é?
O PSD acabou por ganhar apenas Cascais e Mafra em todo o Distrito de Lisboa o que é, convenhamos, muito pouco!
Mas as perspectivas não são nada animadoras para as próximas autárquicas no que ao PSD respeita.
Se Mafra parece estar de pedra e cal, não se augura que o PSD consiga inflectir a tendência de votos já registados nas últimas eleições autárquicas nos restantes municípios do Distrito e em Cascais, a possibilidade do aparecimento de um sucedâneo da geringonça, agora a nível local, poderia mesmo fazer o PSD perder esta Câmara emblemática para as hostes laranja.
Numa clara demonstração que em política vale tudo e a verticalidade e a coerência dos actos não tem valor reconhecido, os mesmos carrascos de Marco Almeida e António Capucho vêm agora fazer de conta que “sempre foram amigos”.
Carlos Carreiras teve um “ataque de azia” de uma semana mas prefere isso a ter que prestar contas no Partido por aumento de perdas.
Embora tenha que engolir Marco Almeida como candidato e tenha que aceitar que o seja nas condições impostas por Marco Almeida, arrumar António Capucho em Sintra é do mal o menos uma vez que, das hipotéticas figuras que poderiam liderar o dito sucedâneo de geringonça, a que detinha maior probabilidade de vencer Cascais era precisamente António Capucho.
Capucho, tem 8 anos de prática, de um estilo de governação de Cascais que enche o coração dos cascalenses de saudade! Qualquer comparação com Carreiras são, futebolisticamente falando, dez a zero a favor de Capucho!
Assim, sem coerência (valor com baixa cotação nos dias que correm ao que parece…) Carreiras e Pinto Luz “solucionam” Sintra a favor do PSD sem colocarem em causa a tribuna que têm em Cascais.
O que me deixa estupefacto é como chegámos a uma sociedade que acha normal a ausência de coerência, de verticalidade, de assunção de responsabilidades.
O PSD no anterior mandato candidatou um Presidente à Junta de Freguesia de Parede que se abotoou com uma quantidade assinalável de dinheiro.
Carreiras, enquanto responsável local do PSD, não sentiu necessidade nenhuma de pedir desculpa aos fregueses de Parede pela má escolha que o seu Partido fez.
Eu sei que não terá sido o PSD que mandou o dito senhor desviar o dinheiro para a jogatana mas que diabo, e a responsabilidade Partidária? Se nem para isto serve, então para que servem os Partidos? Qual a diferença entre votar num Partido ou no Zé dos Anzóis?
E qual foi a resposta do eleitorado nas últimas eleições? Vitória da lista do PSD.
Moral da história? Nem a quero verbalizar, pela vergonha que me dá enquanto cidadão.
Quanto ao eleitorado não se espera nada de novo.
Perante soluções em que sai mais valorizado o que acontece aos Partidos e aos seus militantes do que o que pode esperar Cascais, não auguro nada de muito diferente.
Metade ou mais vai voltar a ficar em casa e os outros, uns por “esquecimento” e outros por convicção vão voltar a deixar tudo com uma má solução!...

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